EDIÇÃO #235 • 11/08/2026 • THEDROPS.COM.BR

Bom dia, Dropper! Pronto pro pregão?

Pensei no chuveiro: que o mercado deveria aprender com cada grande fraude financeira, obrigando a próxima a ser um crime inédito e mais sofisticado. Mas Roberto Teixeira da Costa (fundador da CVM) estudou 16 dos maiores fraudadores da história - de Madoff ao Banco Master - e não achou nenhum traço de “ineditismo’. Achou a mesma receita de sempre: quebra de valores morais, brecha interpretativa da lei, confiança excessiva num regulador e um investidor disposto a ignorar que ninguém paga 20% quando o resto do mercado paga 10%.

No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:

• Petrobras: recorde de lucro, recorde de pedágio
• Berkshire Hathaway: de volta às compras
• Inter: crescendo receita (e dor de cabeça)

Por aqui, mau humor contagia, mas pelo menos o de Wall Street chegou ameno no Ibovespa - em uma queda leve de 0,19%. O estrago só não foi maior porque as petroleiras tiveram um dia de forte alta (Petrobras chegou a subir mais de 3%, ajudada por revisão do Itaú BBA). O destaque ficou com a Embraer, que chegou a subir +10% depois de reportar forte lucro líquido, mas acabou fechando com alta de apenas +2,31%. No radar eleitoral, pesquisa BTG/Nexus mostrou Lula subindo para 47% num eventual segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro recuou para 44%.

Lá fora, depois da melhor semana desde abril, os índices americanos deram uma segurada no ânimo: S&P 500 (-0,06%), Dow Jones (-0,11%) e Nasdaq (-0,32%). O problema é que está todo mundo pressionado pela alta do petróleo e esperando para ver quando (e se) o Estreito de Ormuz vai reabrir. O setor de energia foi o único a nadar de braçada, enquanto tech e imobiliário levaram a pior, com destaque negativo para a Intel - que caiu após anunciar uma oferta diluitiva de US$ 15 bilhões para financiar IA e manufatura. Hoje a atenção vira para os dados de inflação americana, o CPI.

EARNINGS DROPPED BY EQI INVESTIMENTOS

Petrobras: recorde de lucro, recorde de pedágio

O trimestre foi tão bom que a Receita Federal decidiu aparecer na festa

O trimestre da Petrobras foi tão bom (lucro dobrando, recorde de Ebitda, dividendo gordo) que ela decidiu comemorar com uma festa, mas a Receita Federal apareceu com um convite VIP e ainda levou barril de chope embora - foram 662% (sem vírgula, mesmo) de aumento no imposto de exportação na comparação anual.

Os números do trimestre:

🟢 Lucro Líquido: R$ 52,4 bilhões, alta de 96,8% a/a e acima dos R$ 50,8 bi esperados.
🟢 EBITDA Ajustado: R$ 93,8 bilhões, salto de 79,6% a/a.
🔴 Impostos de Exportação: R$ 4,9 bilhões, alta de 662% a/a

Teve ponto positivo: o Brent subiu 54%, a produção cresceu e as refinarias bateram recorde histórico de utilização. O resultado aparece no Ebitda ajustado sem eventos exclusivos, que foi de R$ 100,6 bilhões (+63% do trimestre anterior).

Teve ponto neutro-para-baixo: o ganho com variação cambial, que no primeiro trimestre tinha ajudado o lucro em R$ 12,3 bilhões, murchou para R$ 1,8 bilhão agora.

Teve ponto negativo: a Petrobras passou a pagar R$ 4,9 bilhões só de Imposto de Exportação no trimestre. E a cobrança vem de uma medida provisória que o governo prorrogou e que tem risco de virar definitiva.

Mas a soma ainda é boa: some tudo isso e o lucro "limpo", sem eventos exclusivos, sobe para R$ 55,8 bilhões, mostrando que a operação está ainda mais forte do que o número principal sugere.

Do lado do caixa, a fotografia é igualmente favorável: o fluxo de caixa operacional chegou a R$ 61,8 bilhões e o fluxo de caixa livre praticamente dobrou na comparação trimestral, para R$ 38,6 bilhões.

Isso permitiu reduzir a dívida líquida para US$ 60,4 bilhões e baixar a alavancagem (dívida líquida sobre Ebitda) de 1,43x para 1,14x, no nível mais confortável em anos.

Com esse colchão, o conselho aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e JCP, equivalentes a R$ 1,35 por ação ordinária ou preferencial, pagos em duas parcelas ao longo do segundo semestre.

  • Para os Bulls: o trimestre prova que a Petrobras consegue entregar produção recorde, refino no limite da capacidade e ainda reduzir dívida ao mesmo tempo. Essa é a combinação rara que sustenta dividendo gordo sem sacrificar Capex. Com alavancagem em 1,14x e fluxo de caixa livre dobrando na margem, a companhia tem munição para continuar remunerando acionista mesmo se o Brent recuar um pouco do pico atual.

  • Para os Bears: o resultado depende demais de um Brent que já está perto de US$ 105 e de um ganho cambial que evaporou em um trimestre. Some a isso um Imposto de Exportação que pode deixar de ser exclusivo e virar permanente, e a tese de renda passa a depender de um cenário externo que a empresa simplesmente não controla.

Foi o tipo de trimestre que seria só manchete positiva se não tivesse um adendo que nenhum investidor pode fingir que não existe: quando o resultado fica bom demais, o Leão sempre acha um jeito de aparecer na festa.

Recomendação dos analistas:

Compra forte: 4 | Compra: 7 | Neutro: 2 | Venda: 0
Preço-alvo médio: R$ 56,29 | Preço atual: R$ 42,23
Potencial: +33,30%

Petrobras não é a única que paga bem:

A EQI selecionou ações que sustentam dividendo.

*Conteúdo informativo - não constitui recomendação de investimentos.

MACRO/AÇÕES

→ Special sits: superam pela 1ª vez fundos de private equity em recursos disponíveis,
→ XP Asset: passa a cobrar 1% com 30% em fundo macro.
→ RJs: batem recorde com onda de acordos bilionários.
→ Fundos: Renda Fixa puxa resgate dos fundos de investimentos.
→ FED: Trump faz ligações para Kevin Warsh, aumentando pressão no comitê.
→ Tesouro Nacional: busca acalmar mercado sobre pedido de US$ 35 bi em emissões de títulos no exterior.
→ Setor Aéreo: Gol, Azul e Latam gastaram R$ 5,2 bi por conta da guerra.
→ Lojas Renner: vendas esfriam no trimestre e varejista reduz projeção de receita.
→ Vivara: deixa de comprar ouro, usa estoque acumulado e alcança margem recorde.
→ JBS: tem prejuízo líquido de US$ 102 milhões no segundo trimestre.
→ B3: lança índice de small caps com giro menor de carteira e ETF da XP atrelado.
→ Apex Partners: grupo, que tem 15% da CVC, consegue proteção judicial para não pagar R$ 985 milhões em dívidas.
→ TSMC: registra um aumento de 45% nas vendas, impulsionada pela forte demanda por inteligência artificial.
→ MRV: vende último projeto legado da Resia por US$ 170 milhões.

STATS

-77%

foi a queda da emissão de CRAs com a crise no agro, que saiu de uma média mensal de emissão de R$ 5,3 bilhões ano passado para R$ 1,2 bilhão este ano.

Via Estadão

EARNINGS

Berkshire Hathaway: depois de 14 trimestres de jejum, volta às compras

Abel destrava o cofre que Buffett trancou

Warren Buffett gostava de manter caixa. Greg Abel decidiu que o Oráculo de Omaha é coisa do passado e foi às compras e, pela primeira vez em 14 trimestres, a Berkshire comprou mais do que vendeu (US$ 23,5 bi vs. US$ 3,7 bi).

Os números do trimestre:

🟢 Lucro Líquido: US$ 25,7 bilhões, mais que dobrando (+107,5%) na comparação anual.
🟢 Lucro Operacional: US$ 12,98 bilhões, alta de 16,3% a/a.
🔴 Underwriting de seguros: lucro caiu 13,1% no trimestre, com sinistralidade subindo 4,8 p.p puxada pela GEICO).

O report veio cheio de letras pequenas: dos US$ 25,7 bilhões de lucro, US$ 16,1 bilhões vieram de ganhos com investimentos, que é a valorização no papel da carteira de ações - ou seja: pode cair no trimestre seguinte. Tem mais: parte do crescimento do lucro veio de variação cambial positiva em hedges de euro e iene.

Na operação, a área de seguros historicamente sempre foi a joia da coroa. Mas nesse tri, a GEICO viu sua sinistralidade subir de 71,8% para 76,6%, e a receita de investimentos do braço segurador caiu 9% com juros mais baixos.

Mas tem destaque de verdade: o aporte de US$ 10 bilhões em Alphabet, feito via colocação privada em junho, já vale cerca de US$ 31 bilhões. É uma aposta simbolicamente pesada e já tem peso relevante no portfólio. Além disso, a empresa fez a recompra de US$ 4,5 bilhões em ações (19x mais que o tri anterior).

  • Para os Bulls: a virada de compradora líquida depois de 14 trimestres, o aporte bilionário em Alphabet e a aceleração de recompras mostram uma empresa finalmente disposta a mobilizar o caixa recorde. Tirando tudo o que é ruído, o lucro operacional também cresceu de verdade.

  • Para os Bears: parte considerável do "operacional bom" veio de câmbio, não de operação. O pilar mais confiável da empresa, área de seguros, está mostrando sinal de deterioração e pode prejudicar ainda mais os próximos resultados da empresa.

O tri da BH entregou duas histórias: (i) lucro contábil turbinado por ganhos de papel e câmbio; e (ii) mudança comportamental de quem toma as decisões de capital. São essas duas histórias que temos que observar daqui pra frente.

A última vez que a Berkshire pagou dividendo foi em 1967

A EQI selecionou ações que sustentam dividendo — todo ano.

*Conteúdo informativo - não constitui recomendação de investimentos.
STOCK MARKET

HIGHS AND LOWS

o que subiu e o que desceu nos pregões pelo mundo

Em alta

Prio: ▲ 6,60% liderou o pregão com a disparada do petróleo lá fora, puxada pela escalada de tensão no Oriente Médio.

Petrobras: ▲ 3,33%, acompanhou o mesmo movimento do petróleo, ajudando a segurar o índice.

Embraer: ▲ 2,31% divulgou lucro líquido ajustado de R$ 1,11 bilhão no 2º trimestre, alta forte sobre os R$ 890,3 milhões do mesmo período do ano passado.

Em baixa

Monday.com ▼ 4,84% após a divulgação de projeções trimestrais abaixo das expectativas de Wall Street.

Intel: ▼ 4,06% após a divulgação dos planos de levantar US$ 15 bilhões por meio de um follow-on.

eBay: ▼ 3,81% após relatos de que a GameStop está considerando desistir de sua oferta de aquisição.

EARNINGS DROPPED BY EQI INVESTIMENTOS

Inter: crescendo receita (e dor de cabeça)

lucro recorde, mas o preço da festa é a inadimplência subindo

O Banco Inter reportou o seu maior lucro da história, superando o consenso e acima da própria meta que foi estipulada dois meses atrás. Mesmo assim, o mercado torceu o nariz. A explicação está no que vem crescendo junto com o resultado.

Os números do trimestre:

🟢 Lucro Líquido: R$ 421 milhões, alta de 34% a/a, acima do consenso de R$ 419 milhões.
🟢 ROE: 16,3%, alta de 2,4 p.p. a/a, o maior nível desde o IPO.
🔴 NPL acima de 90 dias: 5,3%, alta de 0,7 p.p. no trimestre, puxada pelo consignado privado.

O lucro recorde foi possível graças à margem financeira (NIM), que passou de dois dígitos pela 1a vez na história, batendo 10,12%. Ao mesmo tempo, o banco segurou as despesas, que cresceram bem menos que a receita.

O problema é: o mesmo produto que turbina a receita (o consignado privado, que saltou de R$ 700 milhões para R$ 2,8 bilhões em 12 meses), também está puxando a inadimplência para cima - o NPL acima de 90 dias subiu de 4,6% para 5,3% em um trimestre.

O Inter garante que a maior parte do problema é operacional, não necessariamente calote de verdade, e já anunciou que vai priorizar clientes de menor risco a partir de agora.

  • Para os Bulls: a receita vem crescendo e a eficiência está em nível recorde. NIM de dois dígitos e, ainda assim, negocia a menos de 9x lucro, um desconto que nem P/L de banco tradicional costuma ter. Se o custo de risco normalizar como a administração promete, o re-rating da ação é questão de tempo.

  • Para os Bears: o banco está trocando qualidade de carteira por rentabilidade de curto prazo, e o mercado já aprendeu essa lição com esse tipo de decisão. Cobertura caindo, NPL subindo e Basileia comprimindo ao mesmo tempo é a receita clássica de problema que só aparece dois ou três trimestres depois…

O Inter fez a lição de casa que dependia dele: crescer receita, cortar despesa, melhorar margem. Mas como toda ação tem uma reação, os próximos trimestres serão importantes e é o que vão decidir se esse recorde envelhece bem.

Recomendação dos analistas:

Compra forte: 2 | Compra: 2 | Neutro: 3 | Venda: 0
Preço-alvo médio: R$ 50,16 | Preço atual: R$ 27,31
Potencial: +83,67%

Quem apostava na tese de crescimento, se decepcionou hoje:

A EQI selecionou ações que sustentam dividendo — o retorno que cai na conta independe do humor do dia.

*Conteúdo informativo - não constitui recomendação de investimentos.

NIM

Net Interest Margin, ou margem financeira líquida, é o termômetro que mede o quão lucrativa é a atividade central de um banco: pegar dinheiro emprestado barato e emprestar caro.

O detalhe que o número esconde é que NIM alto nem sempre é sinal de saúde: pode significar que o banco está cobrando caro porque assumiu clientes arriscados, e aí a margem generosa de hoje vira inadimplência amanhã.

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