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EDIÇÃO #258 • 29/10/2026 • THEDROPS.COM.BR |
Bom dia, Dropper! Pronto pro pregão?
Pensei no chuveiro: que os mercados de previsão juntam a sabedoria da multidão para transformar informação espalhada em probabilidades sobre o futuro. Na prática, às vésperas do segundo turno, Polymarket e Kalshi davam cerca de 80% de chance de vitória a Flávio Bolsonaro, com uns US$ 250 milhões apostados só no Polymarket. Essa confiança ajudou a atrair dinheiro para a bolsa, que ganhou mais de US$ 130 bilhões em valor. No fim, uma aposta de milhões pode ter ajudado a alimentar um tombo de bilhões.
No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:
• O Google não é mais o Google
• A nuvem que segura o prédio da Microsoft
• O impossível que acontece toda década


Por aqui, não teve mais circuit breaker, mas também não teve alívio. O Ibovespa caiu 2,68%, aos 171.006 pontos, no terceiro pregão seguido de perdas, com imobiliárias, small caps e empresas mais dependentes de crédito na linha de tiro. A semana já acumula -16,6% e o mês, -8,2%. O fluxo de retirada dos gringos no pregão de segunda que surpreendeu: foram apenas R$ 2,8 bilhões da bolsa. O dólar fechou em leve queda, -0,19%, mas ainda sobe quase 7% na semana.
Lá fora, o Fed finalmente se reuniu e decidiu que não vai subir juros por enquanto, mantendo a taxa em 3,75-4%. Warsh disse que o crescimento está forte e a inflação, alta demais, fazendo o Treasury de 10 anos subir para 5,05%. Mesmo assim, Wall Street fechou o dia positivo: S&P 500 +0,28%, Nasdaq +0,27%, e Dow +0,19%. Foi a primeira vez no ano que que o S&P fecha em alta num dia de decisão do Fed. O dólar enfraqueceu no exterior depois do comunicado, e o petróleo voltou a passar de US$ 110 o barril.

EARNINGS
O Google não é mais o Google
Pela primeira vez na história o buscador mais queridinho do mundo não é mais a fonte principal de faturamento da Alphabet

A dona do Google soltou seus resultados do trimestre depois do fechamento do mercado com três destaques: (i) cloud dobrou em 12 meses, (ii) a receita do buscador não é mais a mesma e, (iii) a conta da IA agora aparece inteira na DRE… o que derrubou a ação em ~10%.
Os números do trimestre:
🟢 Google Cloud: US$ 30,7 bilhões de receita, alta de 103% a/a.
🔴 Lucro operacional: US$ 40,6 bilhões, estável contra o 2T (US$ 40,8 bi) mesmo com US$ 7,8 bilhões a mais de receita.
🔴 Fluxo de caixa livre: -US$ 9,1 bilhões, o segundo trimestre seguido no negativo.
O Cloud virou a estrela do trimestre, com empresas comprando mais infraestrutura e ferramentas de IA do Google, além de sistemas com chips TPU. O lucro operacional da divisão triplicou em um ano e a margem saltou de 23,7% para 36,2%.
O tradicional Search faturou US$ 63,4 bilhões (alta de 12%, contra 17% no 2T). E isso com o maior aumento no volume de buscas em cinco anos. Ou seja: mais bot gente buscando e menos dinheiro por busca. O AI Mode atrai uso, mas ainda não monetiza cada consulta como o velho link azul.
Essa é a primeira vez na história que a receita do buscador fica abaixo dos 50% do total de faturamente da Alphabet.
Agora o asterisco: o lucro por ação de US$ 2,12 contra um consenso de US$ 3,02. E os culpados são claros: uma perda de US$ 8,7 bilhões em participações acionárias e o Capex, que chegou a US$ 51,4 bilhões, bancado com US$ 28,7 bilhões em dívida nova, US$ 12,4 bilhões em ações e o fim da recompra.
Para os Bulls: o Cloud provou que a IA gera receita de verdade, com crescimento e margens melhorando tri a tri. O backlog passou de US$ 500 bilhões no 2T. O custo de pesquisa é investimento à frente da curva, e quem tiver capacidade instalada em 2027 vai cobrar o pedágio da década.
Para os Bears: o lucro operacional não sai do lugar com a empresa queimando caixa como nunca antes. O Search desacelera justo quando o volume de consultas bate recorde, e o capex agora é pago com dívida e ações.
O trimestre foi ok na operação e bem pesado no caixa. O Cloud prova que a IA dá receita, mas o resto da DRE prova que, por enquanto, ela também come o lucro que gera. A diferença a Alphabet resolveu pagar no crediário.
Recomendação dos analistas:
Compra forte: 13 | Compra: 42 | Neutro: 5 | Venda: 0
Preço-alvo médio: US$ 422,36 | Preço atual: US$ 321,89
Potencial: +31,21%

MACRO/AÇÕES
→ Brasil: Wall Street revisa apostas para o Brasil e tenta calcular até onde vai a correção.
→ Tesouro: socorre mercado de juros com recompra de R$ 31 bi.
→ ETFs: Galapagos lança quatro ETFs que mesclam renda fixa com ações e mais mercados.
→ Construtoras: JP Morgan rebaixa indicações de ações de construtoras e shoppings após reeleição de Lula.
→ Dívida: pode atingir 105% do PIB em 2030 e desafia quarto mandato de Lula.
→ Economia: número de superendividados cresce 75% em cinco anos, para 20,3 milhões.
→ Energia: leilão de transmissão pode girar R$ 8,9 bi.
→ Fictor: Justiça bloqueia bens de antigo braço de consignado da Fictor.
→ Bos Safra: aprova programa para recomprar até 2,9 milhões de ações.
→ Petrobras: preço dos combustíveis vira bode na sala.
→ Vale: preços baixos do minério devem afetar resultado da Vale no 3º tri.
→ Coca-Cola: divulga resultado, com gás vindo de fora do mercado americano.
→ Klabin: reporta lucro de R$ 393 milhões no 3T’26, queda anual de 18%.
→ Santander Brasil: frustra no 3T’26, com lucro 28% menor e ROE de 11,9%.
→ Hypera: reporta lucro de R$ 527 milhões no 3T’26.
→ B3: terá novo horário de funcionamento. Veja como fica o pregão.

EARNINGS
A nuvem que segura o prédio da Microsoft
Cloud cresce acima das expectativas e já são US$ 677 bi em contratos assinados, com uma demanda que ainda supera a oferta de data center.

A Microsoft prometeu gastar mais de US$ 50 bilhões em infra no trimestre e gastou apenas ~US$ 45 bilhões. Prometeu o Azure crescendo 45% e entregou 48%. Menos dinheiro e mais resultado parece o sonho de qualquer CFO. A explicação é menos glamourosa: parte da capacidade que a empresa contrata não chegou a tempo.
Os números do trimestre:
🟢 Receita total: US$ 92,3 bilhões, alta de 19%.
🟢 Azure: US$ 33,2 bilhões, alta de 48% a/a, acima da faixa de 44% a 45% guiada pela própria empresa.
🟢 Lucro por ação ajustado: US$ 4,89, alta de 18% a/a e acima dos US$ 4,73 do consenso.
🔴 Fluxo de caixa livre: US$ 18,6 bilhões, queda de 27% a/a. Só veio melhor que o esperado porque o investimento atrasou.
Quase todo o crescimento vem da Azure: dos US$ 14,6 bilhões de receita nova no trimestre, cerca de US$ 10,8 bilhões vieram da nuvem. Enquanto isso, o resto da empresa cresceu perto dos 7%.
E tem coisa encolhendo: a venda de Windows para fabricantes caiu 22%, o Xbox seguiu no vermelho e os assentos pagos do Microsoft 365 cresceram só 5%, o menor ritmo da série.
O gasto de ganhar: a margem operacional chegou perto de 50% por um caminho curioso. A margem bruta caiu 1,3 ponto, pressionada por uma alta de 44% na depreciação dos servidores. Quem salvou a conta foi o comercial, com o gasto em vendas e marketing congelado no nível de um ano atrás.
O extrato final: US$ 39,4 bilhões em equipamentos no trimestre e o fluxo de caixa livre caiu 27%. Só ficou US$ 10 bilhões acima do esperado porque parte do capex não saiu do papel. O caixa líquido encolheu US$ 7,5 bilhões em três meses, e a empresa passou a falar em buscar financiamento externo. Para quem sempre pagou à vista, é uma bela mudança de vocabulário.
Para os Bulls: O Azure continua acelerando e a demanda ainda supera a oferta. São US$ 677 bilhões em contratos assinados, e a Microsoft segue gerando caixa livre positivo enquanto outros gigantes da nuvem já queimam dinheiro para construir data center.
Para os Bears: três quartos do crescimento vêm de um único produto, que depende de capacidade que a empresa não controla sozinha. A depreciação corre mais que o dobro da receita, o caixa líquido derrete e o resto da Microsoft cresce 7%. O caixa bonito deste trimestre é empréstimo do próximo.
O trimestre foi bom, e não por pouco. Mas a Microsoft não ficou mais eficiente em três meses: o Azure só andou mais rápido que o caminhão. A fatura dos data centers não diminuiu, só mudou de vencimento, e cai no segundo semestre.
Recomendação dos analistas:
Compra forte: 13 | Compra: 41 | Neutro: 3 | Venda: 0
Preço-alvo médio: US$ 605,12 | Preço atual: US$ 531,01
Potencial: +13,96%

STOCK MARKET
HIGHS AND LOWS
o que subiu e o que desceu nos pregões pelo mundo
Em alta
Oracle: ▲ 10,73%, com o investor day prometendo US$ 225 bi de receita no ano fiscal de 2030 e colocou um teto de US$ 20 bi em novas captações.
Wendy’s: ▲ 15,15%, com uma proposta de US$ 1,4 bilhão para fechar o capital, colocando prêmio de cerca de 20% sobre o fechamento anterior.
PRIO: ▲ 1,80%, escapando da liquidação brasileira com o Brent avançando cerca de 1%, para mais de US$ 115, em meio às preocupações com oferta no Oriente Médio. Num Ibovespa que caiu 2,68%, terminar no verde já foi quase ostentação.
Em baixa
Vamos: ▼ 11,34%, com os juros voltando a disparar acertando em cheio empresas intensivas em capital. Para uma locadora de caminhões, dinheiro caro prejudica muito.
Grupo SBF: ▼ 9,75%, a varejista, dona da Centauro, também sofreu com o aumento dos juros e já cai -55,19% apenas nessa semana pós-eleições.
Santander Brasil: ▼ 5,88%, com o lucro recorrente caindo 28% em um ano, para R$ 2,9 bilhões, enquanto receitas, margens e qualidade do crédito continuaram sem mostrar a recuperação esperada.

ETFs
O impossível que acontece toda década
O EWZ caiu 19,8% na segunda, um tombo de 8,4 desvios-padrão que os modelos dizem que, teoricamente, não deveria existir

Acertar a Mega-Sena duas vezes seguidas parece sorte de quem nasceu com um trevo de quatro folhas no bolso. Ainda assim, é umas 23x mais provável do que o tombo do EWZ na segunda, pelo menos para a estatística que supõe retornos com distribuição normal.
O tombo: o ETF que carrega as ações brasileiras em dólar despencou 19,8% num único pregão.
A conta: a Kobeissi Letter resumiu. Com variação média diária de 0,04% e desvio-padrão de 2,36% nos últimos 20 anos, o tombo equivale a 8,4 desvios-padrão. Na curva normal, isso dá uma chance de 1 em 58 quatrilhões - ou seja, praticamente impossível.
Pra quem matou as aulas de estatística na faculdade e não lembra do gráfico de sino:
1 desvio-padrão cobre cerca de 68% dos resultados;
2 desvios: ~95%;
3 desvios: ~99,7%.
Daí pra frente é a cauda da distribuição, onde os modelos guardam o que acham que nunca vai acontecer.
O problema não é a conta, é a premissa. A curva normal trata a bolsa como um dado honesto, em que cada jogada ignora a anterior. Só que bolsa não é dado: é gente com medo vendendo pra gente com mais medo ainda, com algoritmo de stop jogando gasolina. E aí…
→ Usar a volatilidade média de 20 anos trata a segunda como um dia qualquer, e ela não era.
→ Com o mercado vendo cerca de 30% de chance de um resultado eleitoral adverso, o tombo não era um cisne negro de 1 em 58 quatrilhões. Era um risco conhecido e mal precificado.
→ O raio caiu onde o temporal já estava armado, e até Nassim Taleb ironizou a conta.
Tanto que nem foi o pior dia da história do EWZ. Em 15 de outubro de 2008, no auge da crise financeira, o ETF caiu 19,6%. E na pandemia ainda teve uma queda de 23,09% em um único dia. Três eventos “impossíveis” em menos de 20 anos.

STATS
20,3 milhões
é o número de superendividados no Brasil, com uma alta de 75% nos últimos cinco anos.
Via ValorInveste

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