EDIÇÃO #243 • 08/09/2026 • THEDROPS.COM.BR

Bom dia, Dropper! Pronto pro pregão?

Pensei no chuveiro: que guardar ouro nos cofres dos EUA sempre foi a decisão mais segura que um BC podia tomar, pois era o país mais estável do sistema financeiro. Mas na prática, a Holanda passou os últimos seis meses tirando 86 toneladas (US$ 12,3 bilhões) de Nova York e Ottawa e levando para Londres, alegando uma "situação de crise" sem nunca dizer qual. O ativo que os bancos centrais compram pra se proteger da instabilidade e da crise decidiu se proteger dos Estados Unidos.

No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:

• BBSE x CXSE: mesmo trimestre, sinal diferente
• IPO da Oura: sono lucrativo, prospecto insone
• Nike: o pior ano desde a aposentadoria de Jordan

Por aqui, o Ibovespa aproveitou o feriado igual você e descansou para recuperar as energias, numa merecida soneca depois de valorizar 5,40% na sexta-feira. Setembro chegou chegando, com o estrangeiro colocando R$ 3 bilhões por aqui somente nos três primeiros pregões do mês, mas o dólar não recebeu o memorando do otimismo na sexta, e subiu 0,50%, colocando água no chope da festa local por causa do que rolou no exterior.

Lá fora, também teve descanso para os traders com o feriado do Labor Day. O saldo de sexta-feira não foi dos melhores, com os dados do payroll de agosto vindo pra bagunçar, com 162 mil vagas criadas contra as 53 mil esperadas, e o desemprego parado em 4,1%. Emprego forte demais é receita clássica pra virar dor de cabeça de quem queria corte de juros, e o mercado já precifica 60% de chance do Fed subir a taxa em 0,25 p.p no próximo encontro do FOMC, nos dias 15-16 de setembro.

EARNINGS

BBSE x CXSE: mesmo trimestre, sinal diferente

Prêmios da BBSE caíram 5%, puxados pelo penhor rural, que despencou 11,4%. Do outro lado, a CXSE cresceu 5%, com o habitacional subindo 14%.

Duas seguradoras grudadas em bancos públicos, o mesmo trimestre, o mesmo país. O BB entregou R$ 2,15 bilhões e viu o preço-alvo cair abaixo da cotação. A Caixa entregou pouco mais da metade disso, bateu o maior ROE da própria história e não animou ninguém. O 2T26 de Caixa e BB Seg mostrou que o mercado não paga por lucro, mas por direção.

Tem coisa em comum, mas a diferença nasce no balcão do banco. O da BB Seguridade é o agronegócio, que passou o ano em recuperação judicial e crédito represado. O da Caixa é a casa própria, e crédito imobiliário no Brasil não tira férias.

BB Seguridade

Foi um trimestre de quem está segurando as pontas. A Brasilseg entregou uma sinistralidade abaixo do que todas as casas projetavam, com os prêmios recuando 5% e o penhor rural despencando 11,4%. Pra piorar, a Brasilprev virou negativa em R$ 49 milhões porque o IGP-M defasado subiu 4,1% e inflou o passivo dos planos de benefício definido.

Sobrou o dividendo, de R$ 3,9 bilhões no semestre, 88% de payout, a R$ 1,98 por ação.

🔴 Lucro Líquido: R$ 2,15B (-3,9% a/a).
🔴 Prêmios emitidos: R$ 3,5B (-5% a/a).
🟢 Múltiplo e dividendo: 8,9x lucro e DY de 10,75%.

Por que BB Seguridade: você compra a operação mais eficiente do setor a 8,9x P/L, com quase 11% de dividendo ao ano, num negócio que cresce sem consumir capital. O agro é cíclico e deve voltar. Enquanto não volta, o cheque cai todo trimestre e o desconto do múltiplo trabalha sozinho.

Caixa Seguridade

Teve o trimestre de quem pegou carona no motor certo: lucro gerencial de R$ 1,14 bilhão (+9,5%), receita de R$ 1,5 bilhão (+8,5%) e o maior ROE da história da companhia: 70,9% ao ano. Prêmios emitidos subiram 5%, para R$ 2,49 bilhões, puxados pelo habitacional com R$ 1,12 bilhão (alta de 14%).

A previdência foi o contraste mais gritante com a rival: contribuições de R$ 6,7 bilhões (+17,7%), captação líquida positiva de R$ 1,4 bilhão e reservas 16% maiores, enquanto a Brasilprev sangrava. Resultado de 92% do lucro distribuído, a R$ 0,35 por ação.

🟢 Lucro Líquido: R$ 1,14B (+9,5% a/a).
🟢 Prêmios emitidos: R$ 2,49B (+5% a/a).
🔴 Múltiplo e dividendo: 13,3x e DY de 6,57%.

Por que Caixa Seguridade: o crédito imobiliário é o motor mais previsível da economia brasileira e a Caixa é dona dele. Prêmios em alta de 5%, combinado de 57,6% e o maior ROE da história da companhia descrevem uma máquina que ainda tem para onde ir. 13x P/L por crescimento contratado é caro só na planilha.

O veredito de verdade: as duas são operações excelentes presas a bancos que decidem por elas, e o mercado precifica isso: desconto para quem depende de um balcão em crise, prêmio para quem depende de um balcão em alta. Nesse mercado, ninguém está comprando seguradora… todo mundo está comprando o banco por tabela.

Recomendação dos analistas:

BBSE3
Compra: 1 | Neutro: 6 | Venda: 2 | Venda forte: 3
Preço-alvo médio: R$ 37,33 | Preço atual: R$ 42,16
Potencial: -11,45%

CXSE3
Compra forte: 1 | Compra: 5 | Neutro: 5 | Venda: 2 | Venda forte: 1
Preço-alvo médio: R$ 20,11 | Preço atual: R$ 19,98
Potencial: +0,67%

MACRO/AÇÕES


→ Fundos: encolhem no Brasil e gestores migram para os grandes bancos.
→ Ouro: gestoras com US$ 27 trilhões sob gestão renovam apostas no metal.
→ CVM: quer acelerar uso de inteligência artificial na supervisão do mercado.
→ Small caps: superam Ibovespa na semana de rali eleitoral.
→ Vale: abandona plano de abrir capital da unidade de metais básicos.
→ Toky: minoritários acionam CVM, questionam possível OPA e conversão de debêntures.
→ Embraer: e SPX articulam fusão e criam empresa de R$ 700 milhões.
→ Camil: fundadores dão controle da empresa como garantia em operação de R$ 350 milhões.
→ 3Corações: conclui compra da Yoki e Kitano por R$ 800 milhões.
→ BC: determina liquidação de duas gestoras ligadas ao Banco Master.
→ BTG: faz votação para incorporar fundo taxa zero da Empiricus e reduzir teto conjunto.
→ CVC: renegocia dívida, corta juros e empurra vencimentos para 2029.
→ Mercado Livre: supera Shopee e terá a maior locação de galpão do Brasil.
→ Banco do Brasil: XP mantém neutro e preço-alvo de R$ 21.

DROPPED BY MONTE BRAVO

O “jeito americano de investir” está evoluindo no Brasil

Enquanto Hollywood continua reprisando O Lobo de Wall Street, o mercado de investimentos já se reinventou e o modelo de remuneração começou a acompanhar.

  • Nos EUA, começou a mudar em 1975, quando a SEC acabou com as comissões fixas de corretagem. Meio século depois, 72% dos advisors já são remunerados por taxa fixa, ou Fee Based.

  • No Brasil, o relógio começou a andar em 2023, quando a CVM passou a exigir transparência de quanto o assessor ganha e de quem.

A diferença é de incentivo, não de discurso. Na comissão, o assessor ganha quando a carteira se movimenta. Na taxa fixa, o advisor ganha quando o patrimônio do cliente cresce.

Dá para ver o tamanho dessa diferença sem falar com ninguém. Veja a conta do Fee Based aqui →

Bancassurance

É o casamento de conveniência entre Banco e Seguradora: o banco usa sua rede de agências, seu app e sua base de clientes para vender seguros, aproveitando a inteligência que já tem sobre quem pode pagar.

Pro banco, é receita de tarifa e comissão que não consome capital nem exige risco de crédito; pra seguradora, é um canal de distribuição pronto que custaria uma fortuna montar do zero.

TECH

IPO da Oura: sono lucrativo, prospecto insone

Oura entra com pedido de IPO na SEC, após faturar US$ 1,21 bi em 9 meses e dobrar sua base de assinantes, mas com vários riscos elencados na tese.

A Oura virou trend nos escritórios de tech, academias badaladas e mesas de reunião dos VCs. Ela fabrica um anel de titânio com sensores, mas vende junto estilo e a promessa de que o consumidor vai ser “o dono da própria saúde”. Agora quer que ele também seja dono de ações, porque entrou com o pedido de IPO nos EUA.

O Oura Ring mede sono, frequência cardíaca e temperatura corporal, e o app cobra assinatura por cima, pra transformar esses dados em conselho personalizado. Simples assim, e lucrativo o bastante pra bancar um IPO.

Feito mais raro num IPO de tech: a empresa já é lucrativa, com US$ 60,8 milhões nos últimos 9 meses.

Os números do prospecto explicam o entusiasmo:

  • Receita: US$ 1,21 bilhão nos nove meses até junho, alta de 74%, com margem bruta subindo de 51% para 55%.

  • Lucro líquido: de US$ 60,8 milhões, contra US$ 1,6 milhão um ano antes.

  • Assinantes: de 2,5 milhões para 5 milhões, puxando a receita de assinatura pra US$ 240,5 milhões, com alta de 121%.

  • Anéis vendidos: saltaram de 1,8 milhão pra 3,1 milhões, alta de 75%.

O grande trunfo: é que a Oura está conseguindo fidelizar o cliente, monetizando muito além da compra - a receita de assinaturas cresceu 121%, contra 75% da receita dos anéis. É a diferença entre um fabricante de hardware e uma empresa de dados que aluga hardware pra coletá-los.

Por outro lado: a Oura reconhece que o "rápido crescimento pode não ser sustentável" e que a taxa deve desacelerar. A empresa ainda lista concorrentes - Apple, Fitbit e Samsung com smartwatches; Garmin, Coros e Whoop com wearables especializados - e reconhece que esses rivais "podem ter recursos significativamente maiores".

No fim, a Oura tenta se vender não como fabricante de anel, mas como plataforma. É a narrativa clássica de quem quer múltiplo de tech, não de bem de consumo.

PS: O valuation esperado passa dos US$ 11 bilhões, que foi o valor da última rodada privada. A estreia deve sair ainda este mês.

AÇÕES

Nike: o pior ano desde a aposentadoria de Jordan

Caindo ~77% da sua máxima histórica, a ação agora leva outro “toco”: saiu do S&P 100.

Em 1993, Michael Jordan se aposentou do basquete pela primeira vez e deixou a Nike com uma baita dor de cabeça. Agora, 2026 caminha pra ser o pior ano da ação desde então, caindo -38% no ano e 78% desde o seu pico histórico de 2021. Para piorar, sai do S&P 100, o índice reservado pras blue chips mais consolidadas dos EUA.

O capitão: o CEO Elliott Hill assumiu em 2024, já herdando o problema criado pelo antecessor John Donahoe.
O adversário dentro de casa: sob Donahoe, a Nike apostou fichas demais em tênis de estilo de vida como Air Force 1 e Dunk e cortou fornecimento pra varejistas terceirizados, abrindo espaço de prateleira pra concorrência.
A crise: entre 2020 e 2024, a ação caiu 20% enquanto o S&P 500 subia 80%.

Em resumo, apostou demais nas franquias de sempre, empurrou forte demais o modelo direto ao consumidor, arranhou relações com o varejo e perdeu força na China. E aí junto com o crescimento, deu adeus ao índice.

As mudanças no S&P 100 também passam uma mensagem nas entrelinhas:

  • Entram: Dell, Palo Alto Networks, Arista e Sandisk.

  • Saem: Nike, Colgate-Palmolive, Simon Property e Honeywell Aerospace.

  • Ou seja: servidor/ cibersegurança/ infraestrutura de dados ganham espaço, e ícones do consumo, dona de shopping e indústria tradicional perdem.

A saída do S&P 100 serve como régua de quanto o sentimento já andou: de compounder eterno a integrante removida do clube das blue chips americanas.

Jordan se aposentou aos 30 e voltou dois anos depois pra ganhar mais três títulos. A pergunta que ninguém sabe responder ainda é se a Nike, aos 62 anos de marca, tem o mesmo segundo ato guardado na manga!

PS: se fechar 2026 no vermelho, será o quinto ano seguido de queda, recorde de sequência ruim pra empresa.

STATS

US$ 39,4 milhões

foi a remuneração média dos 100 CEOs mais bem pagos dos EUA, que teve uma alta de +35,8% em 2025. Veja os salários e o ranking dos 20 mais bem pagos do mercado americano.

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