EDIÇÃO #239 • 25/08/2026 • THEDROPS.COM.BR

Bom dia, Dropper! Pronto pro pregão?

Pensei no chuveiro: que estímulo fiscal em período de crise deveria ser temporário, com o governo gastando para segurar a economia e depois o voltando ao normal. Já na prática, nos EUA esse "depois" nunca chegou… em dois anos a dívida pública engordou o equivalente ao valor de mercado inteiro da Apple (mais quatro Petrobras de troco) e hoje soma US$ 40 trilhões, ou 125% do PIB. O rombo é americano, mas a conta circula, pois juro alto lá segura o dólar caro e empurra a inflação no mundo todo.

No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:

• Walmart: tropeçou no carrinho de compras
• Braskem: 90 dias de trégua
• Alibaba: lucro evapora 75%

Por aqui, depois da sequência de derrotas tristes, o Ibovespa engatou uma sequência de alegrias com 4 pregões seguidos em alta, fechando ontem em +0,86%, puxado por Vale (alimentando a especulação de que o dinheiro estrangeiro está voltando) e pela Yduqs (disparando por causa de conversas sobre fusão com a Afya). Do outro lado, o petróleo corrigiu parte do valor e encerrou a sequência de seis altas da Petrobras. A Braskem também recuou, depois de protocolar pedido de RE para renegociar US$ 10,9 bilhões em dívidas.

Lá fora, os índices fecharam mistos: o Dow subiu 0,26% (53.417 pontos), enquanto S&P 500 (-0,28%) e Nasdaq (-0,76%) recuaram, derrubados pela sangria nos papéis de semicondutores, com Micron caindo 5,8%. O mercado agora fica atento ao balanço da Nvidia, que sai amanhã. No campo político, o Tesouro americano anunciou uma nova rodada de sanções contra o Irã (batizada de "Operation Economic Outcast"), e Trump elevou para 50% as tarifas sobre carros, autopeças e aço vindos do Canadá a partir de janeiro de 2027. A semana ainda promete: temos o PCE (medida de inflação preferida do Fed) amanhã e na sexta o discurso de Kevin Warsh no simpósio de Jackson Hole.

EARNINGS

Walmart: tropeçou no carrinho de compras

O trimestre teve crescimento abaixo do esperado pelo mercado e CFO diz que o bolso americano está mais raso.

Sabe aquele carrinho de mercado que tem uma roda emperrada, puxa para o lado o tempo todo, mas ainda anda? É num desses que o Walmart carregou o último trimestre, com as vendas nas mesmas lojas nos EUA subindo só 2,6%, no pior ritmo em quase seis anos. Como a varejista é considerada o termômetro da economia americana, um número fraco assusta.

Os números do trimestre:

🟢 Receita: US$187,94 bilhões x US$ 186,77 bilhões esperados.
🟢 Lucro por ação ajustado: US$ 0,81 x US$ 0,74 esperados.
🔴 Vendas mesmas lojas EUA: +2,6%, pior ritmo em quase seis anos (o mesmo tri ano passado foi 4,6%).

O CFO John David Rainey foi a público para explicar os números. Para ele, o consumidor americano ficou mais cauteloso por causa de: (i) gasolina mais cara; (ii) rendimento médio por hora desacelerando; (iii) confiança em baixa; (iv) taxa de poupança nas mínimas desde 2022.

A resposta do Walmart: jogar dinheiro na mesa. A rede baixou o preço de 11 mil itens no trimestre, contra 7.200 no trimestre anterior, priorizando categorias mais sensíveis, como a carne bovina. Mas sabe que tudo isso vai impactar a margem.

Já o negócio "novo" do Walmart segue andando rápido: e-commerce global subiu 23%, publicidade saltou 38%, e a receita de assinatura (Walmart+, Sam's Club Plus) cresceu 17% no mundo todo. É um Walmart cada vez menos loja física e cada vez mais "ecossistema digital que também tem loja física".

  • Para os Bulls: o motor de maior margem do Walmart (publicidade, assinatura, marketplace) está crescendo bem mais rápido que a loja tradicional, e ganho de participação de mercado segue forte mesmo entre domicílios de renda mais alta.

  • Para os Bears: vendas nas mesmas lojas decepcionaram mesmo com todo esse dinheiro extra jogado em desconto, e o consumidor americano está visivelmente mais apertado. Tire a maquiagem tarifária e o trimestre foi bem mais morno do que a manchete sugeria.

No fim, o Walmart não fez nada de errado, só que o carrinho de compras do americano médio está mais leve e mais lento, e nem o maior varejista do mundo consegue arrumar essa rodinha.

Recomendação dos analistas:

Compra forte: 10 | Compra: 26 | Neutro: 6 | Venda: 0 | Venda forte: 1
Preço-alvo médio: US$ 128,43 | Preço atual: US$ 106,49
Potencial: +20,60%

MACRO/AÇÕES


→ Fluxo: estrangeiro foge da Bolsa e agrava crise por juro alto e quebradeira de empresas.
→ Impostos: Trump quer indexar os ganhos de capital à inflação.
→ Criptomoeda: a Hyperliquid já subiu 145% neste ano e entra na carteira do fundo HASH11.
→ Inadimplência: para Citi, a piora da inadimplência ainda está longe de terminar.
→ Dívida soberana: vencimento de R$ 1,8 tri da dívida em 2027 reforça urgência de ajuste fiscal.
→ Casas Bahia: busca escolta para executivos após intimidação de gestora.
→ Gol: quer impedir que American Airlines seja sócia da Azul.
→ MBRF: Bank of America volta a recomendar a compra das ações.
→ BTG Pactual: entra em benefícios corporativos e acirra disputa em mercado de R$ 150 bilhões.
→ Toky: nem auditoria nem administrador judicial conseguem "enxergar" os números.
→ Google: a conta por trás do acordo com a Marvell, que pode chegar a US$ 120 bilhões.
→ Unitree Robotics: a empresa de robôs que dançam e lutam estreia com alta de 460% na Bolsa de Xangai e já vale US$ 50 bi.

STOCK MARKET

HIGHS AND LOWS

o que subiu e o que desceu nos pregões pelo mundo

Em alta

Yduqs: ▲ 12,83% depois que a empresa confirmou, em FR, que mantém conversas em estágio inicial com a Afya para uma possível fusão.

Expedia: ▲ 5,47% depois que a Evercore ISI elevou seu preço-alvo para US$ 430.

Vale: ▲ 2,80% foi o principal motor da alta do índice ontem, puxada pela força do minério de ferro lá fora.

Em baixa

Braskem: ▼ 6,71%, com o CA aprovando o pedido de recuperação extrajudicial, para reestruturar cerca de US$ 10,9 bilhões em dívidas.

Coinbase: ▼ 3,76%, mesmo com o lançamento de um novo serviço que permite aos investidores negociarem ações americanas em sua rede de criptomoedas.

Petrobras: ▼ 2,26%, corrigindo depois de 6 sessões seguidas de alta do petróleo.

DROPPED BY EQI INVESTIMENTOS

Até a melhor carteira precisa de revisão

O mercado muda. Juros mudam. As empresas mudam. E uma ação que fazia sentido ontem pode não ser a melhor escolha hoje (mesmo pagando dividendos).

A EQI selecionou ações que sustentam distribuição na Carteira Mais Dividendos. Revisada todo mês, pra acompanhar as mudanças de cenário e selecionar empresas com potencial de valorização e remuneração aos acionistas. Confira a carteira aqui →

BRASIL

Braskem: 90 dias de trégua

A empresa protocolou um pedido de Recuperação Extrajudicial e agora tenta alinhar interesses dos credores para resolver a dívida de R$ 54 bi.

Uma dívida de R$ 54 bilhões não é exatamente confortável, mas é essa a situação em que a Braskem se encontra. Para conseguir respirar e entender como resolver a situação, a empresa protocolou ontem um pedido de Recuperação Extrajudicial e ganhou 90 dias de proteção contra execuções enquanto tenta, de verdade, fechar algum tipo de acordo.

Os capitulos anteriores dessa novela foram de ameaças dos credores para uma RJ, caso não houvesse um plano definitivo ou um compromisso da Petrobras de colocar mais dinheiro.

RE vs RJ

Recuperação extrajudicial: a empresa negocia a renegociação de dívida diretamente com os credores antes de levar o caso à Justiça, que só entra pra homologar o acordo já fechado.

Recuperação judicial: o acordo não existe e a empresa pede pra Justiça um prazo de proteção contra credores enquanto negocia, sob supervisão de um administrador judicial nomeado pelo juiz.

Outra luta começa agora, com a empresa tentando alinhar grupos que discordam sobre quase tudo:

  1. Precisa injetar dinheiro novo na empresa? E quanto?

  2. Parte da dívida vira ação, diluindo os acionistas atuais?

  3. Que garantias os credores vão receber?

  4. Como (e por quanto tempo) alongar a dívida?

Bancos estrangeiros preferem alongar os prazos e questionam se é preciso capital novo. Os bondholders, que são a maior fatia do bolo com 65% do total, pressionam por uma capitalização de até US$ 4 bilhões, colocando a Petrobras na parede para aportar. Já os controladores não gostaram de nenhuma das duas versões.

A estrutura da dívida também não ajuda: são US$ 9,5 bilhões concentrados em bonds internacionais em dólar, todos bullet (sem amortização no meio do caminho, com vencimentos cheios de uma vez só). Tem ainda um Revolving Credit Facility de US$ 1 bilhão vencendo no fim do ano, um gatilho de liquidez que existe independentemente de qualquer acordo com bondholders.

Pra completar a novela, a Braskem Idesa, a joint venture mexicana, entrou com pedido do Chapter 11 nos EUA, com planos de reduzir a dívida sênior de US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão, e a Braskem se comprometeu a aportar outros US$ 476 milhões para continuar sendo a acionista principal.

Como bancar isso sem sacrificar os credores da matriz é só mais um item na lista de brigas dos próximos 90 dias!

PS: as ações da Braskem já caem 42% em 12 meses, e a empresa vale hoje R$ 3,6 bilhões na Bolsa.

Medida Cautelar

É o botão de pausa do Judiciário: uma decisão provisória que congela uma situação antes do mérito ser julgado, justamente para evitar que, quando a sentença final chegar, já não sobre nada para proteger.

É o que faz a CVM suspender uma oferta suspeita da noite pro dia, ou um juiz bloquear bens de um controlador antes que o dinheiro resolva tirar férias em algum paraíso fiscal.

Mas lembre-se: cautelar não é veredito! É provisória, reversível e pode cair a qualquer momento!

EARNINGS

Alibaba: lucro evapora 75%

Capex de IA está comendo o lucro de hoje pra tentar garantir o de amanhã, mas investidores ainda seguem céticos.

A receita sobe e bate consenso, e a vertical do cloud acelerou como não acelerava há anos. Mesmo assim, o lucro líquido evaporou 75% na comparação anual. A Alibaba entregou um trimestre que não mostra uma operação ruim, mas mostra o preço da aposta em IA aparecendo.

Os números do trimestre:

🟢 Receita: RMB 268,95 bi, alta de 9% a/a, levemente acima do consenso de mercado.
🟢 AI Cloud and Compute Services: RMB 48,4 bi, +45% a/a - maior aceleração de crescimento do segmento em vários trimestres.
🔴 Lucro Líquido: RMB 10,44 bi, queda de 75% a/a, o pior número da manchete.

O problema é que a matemática não mente: aumentar o gasto mais rápido que a receita faz isso. O capex (data centers, chips, modelos de IA) saltou 75% para RMB 67,7 bi, e o fluxo de caixa livre virou negativo em RMB 44,7 bi, mais que o dobro do buraco do ano passado.

Enquanto isso, o motor que sustenta a tese de que "vale a pena esperar" continua rodando redondo: a receita de produtos de IA emplacou o 12º trimestre seguido de crescimento de três dígitos, e a Alibaba Cloud assumiu a ponta do mercado chinês de nuvem de IA, com 38% de participação.

O contraponto incômodo mora no e-commerce doméstico: a receita da China caiu 8% e a receita de publicidade e serviços a lojistas (CMR) recuou 7%.

Ou seja: o motor antigo (e ainda principal) Taobao/Tmall está capengando, e quem está carregando o piano são a nuvem e o quick commerce (+45%, turbinado por Freshippo e Taobao Instant Commerce).

  • Para os Bulls: cloud acelerando a 45% com margem EBITDA saltando 133% é a prova de que o dinheiro investido em infraestrutura de IA está virando receita de verdade, não promessa. Com 12 trimestres seguidos de crescimento triplo dígito em produtos de IA e a Alibaba Cloud liderando a China, o mercado está pagando por um crescimento estrutural que só está começando a aparecer na régua certa.

  • Para os Bears: gastar 75% a mais em capex e queimar RMB 44,7 bi de caixa livre num único trimestre, enquanto o negócio que ainda paga as contas encolhe 8%, é a receita clássica de quem está investindo além da própria capacidade de gerar caixa. A Alibaba está financiando a corrida da IA torrando a rentabilidade do core business.

A Alibaba trocou lucro de curto prazo por um bilhete de loteria de IA de longo prazo. Após o balanço, ainda anunciou uma captação de US$ 10,2 bilhões em Hong Kong para financiar mais infra de IA. O mercado segue torcendo o nariz, com as ações já caindo -25% no ano.

PS: Michael Burry escreveu no domingo que se desfez das ações da Alibaba para investir na concorrente JD.com.

Recomendação dos analistas:

Compra forte: 8 | Compra: 30 | Neutro: 1 | Venda: 0 | Venda forte: 1
Preço-alvo médio: US$ 188,10 | Preço atual: US$ 118,47
Potencial: +58,77%

STATS

US$ 40 trilhões

É o tamanho da dívida nacional americana, que pela 1a vez na história ultrapassa essa marca.

Via Bloomberg

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