EDIÇÃO #259 • 03/11/2026 • THEDROPS.COM.BR

Bom dia, Dropper! Pronto pro pregão?

Pensei no chuveiro: na teoria, a reforma tributária seria a grande simplificação, com um IVA único calibrado para arrecadar o mesmo de antes, com regras mais claras. Na prática, a alíquota projetada de 26,5% virou 27,91%, a CBS foi para 11,3% e o IVA dual caminha para cerca de 30%, o que seria o maior do mundo. E isso antes de definir o Imposto Seletivo, a lista da Zona Franca e os créditos do agro. A única coisa simples e clara na reforma é a direção da alíquota: para cima.

No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:

• Recorde no retrovisor, margem no para-brisa da Apple
• Pediram teto de gastos, veio teto de juros
• O cobre que pagou a conta do ferro

Por aqui, o Dia de Finados não teve pregão, mas teve lembranças e saudades do que partiu com o saldo da semana passada: 5 dias de queda, o índice perdendo 19,9% desde o topo em 9 de outubro e um cheirinho de bear market. O dólar também teve a maior alta semanal desde 2008, subindo +9% e fechando a semana em R$ 5,446. Nesta quarta teremos o Copom decidindo o rumo da Selic, com uma difícil decisão na mão de Galípolo quanto à condução da política monetária em meio a uma economia bem estressada.

Lá fora, EUA e Irã dão um aceno pela paz (de novo) e o petróleo caiu ~7%. Mesmo assim, Wall Street não foi só comemoração: S&P 500 caiu 0,51% e a Nasdaq perdeu 1,07%, com a rotação pra fora de tecnologia continuando. Outubro fechou com a Nasdaq em -5,3%, o pior mês desde março de 2025, e o S&P 500 negocia a cerca de 19x P/L esperados, o menor múltiplo desde 2023. A semana tem eleições legislativas americanas, mais balanços de big techs e o payroll na sexta.

EARNINGS

Recorde no retrovisor, margem no para-brisa da Apple

iPhones e Macs seguem brilhando nos reports da Apple, mas inflação das memórias pode finalmente chegar no próximo trimestre

O primeiro balanço de John Ternus como CEO da Apple estava indo bem, com receita e lucro por ação acima do esperado e o iPhone ainda brilhando. Mas aí o CFO começou a falar sobre as expectativas, e o after-hours virou.

Os números do trimestre:

🟢 Receita: US$ 114,5 bilhões, alta de 12% a/a e acima do topo do guidance.
🟢 Lucro por ação: US$ 2,10 x US$ 1,99 esperados.
🟢 iPhone: US$ 57,6 bilhões, alta de 17% a/a, com só oito dias de iPhone 18 Pro dentro do trimestre.
🔴 Margem bruta: 47,9%, mas guidance para dezembro é de 45-46%.

A diferentona: se pras outras big techs a IA é o que move o report, na Apple quem domina são iPhone e Mac, que cresceu 24% e virou o segundo maior motor do hardware. O problema é que nas outras linhas a coisa desandou - o iPad caiu 10%, Watch e AirPods caíram 8%.

O problema à vista: a receita de Serviços cresceu 10%, no ritmo mais lento em mais de três anos. Essa é a frente que deveria compensar a ciclicidade do iPhone, mas está perdendo giro.

O outro problema à vista: toda a indústria sofre com a inflação das memórias e a Apple só não começou a repassar isso para os clientes porque tem estoque. Só que em algum momento ele vai acabar e a conta vai chegar.

A margem: são 47,9% de margem bruta, mas ela carrega 1% de reembolso das tarifas nos EUA e isso é pontual. Os custos também vão aumentando: o P&D subiu 32% e já come 10% da receita, contra 8,7% um ano atrás.

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Detalhe: a Apple recomprou menos ações do que no ano anterior, e viu seu caixa líquido subir para US$ 57 bilhões. A máquina de recompra mais famosa do mundo está guardando dinheiro e isso manda sinais para o mercado.

  • Para os Bulls: a Apple está ganhando o jogo da escassez. Usou escala e caixa para garantir componentes. E enquanto o Android briga por memória, cresceu o iPhone a 17%. Margem comprimida em ciclo de custo é temporária.

  • Para os Bears: a margem vem caindo trimestre após trimestre, serviços desacelerando e P&D disparando. A 39x P/L, ninguém paga por isso. O guidance de dezembro foi a primeira vez que a conta apareceu inteira.

O trimestre foi bom, mas olhava para trás. A Apple de setembro vendeu o que tinha, ajudada por um reembolso e por uma despensa cheia… já a Apple de dezembro vai ter que mostrar que sabe ganhar dinheiro com memória cara e Ternus correndo com a sombra do Tim Apple Cook.

Recomendação dos analistas:

Compra forte: 6 | Compra: 18 | Neutro: 13 | Venda: 3 | Venda forte: 3
Preço-alvo médio: US$ 332,39 | Preço atual: US$ 338,32
Potencial: -1,75%

MACRO/AÇÕES

→ Cripto: roubo de US$ 6,3 bi da Binance bate recorde e expõe riscos de segurança no setor cripto.
→ Reforma Tributária: começa a andar, mas fantasma de alíquota recorde assusta.
→ BC decreta liquidação da MW Pay depois de receber mais de mil reclamações em seis meses.
→ Ibovespa: cai quase 20% desde o pico e beira o 'bear market' após reeleição de Lula.
→ EWZ sai de captação para resgate.
→ PMI industrial dos EUA cai a 54,9 em outubro, de 55,9 em setembro, informa S&P Global.
→ BNDES: estuda uso do Fundo Garantidor de Exportação para investimento em mineração.
→ Venezuela: quer privatizar alguns ativos estatais.
→ Argentina: economia caminha para recessão e testa Milei antes da eleição de 2027.
→ Chilli Beans: com dívidas de R$ 340 milhões, entra com pedido de recuperação extrajudicial.
→ CSN fecha acordo de exclusividade de R$ 12,7 bilhões com a Huaxin para a venda da CSN Cimentos.
→ Embraer fecha acordo para fornecer até seis aviões para a Força Aérea da Grécia.
→ Neoenergia arremata lotes 1 e 7 em leilão da Aneel.
→ Raízen, com mais de R$ 60 bilhões em dívidas, será dividida em duas empresas e terá novo comando.
→ Usiminas reverte prejuízo, mas ação desaba na bolsa.
→ Palantir: a receita voa, mas a carteira de contratos não.

BRASIL

Pediram teto de gastos, veio teto de juros

Proposta de André Lara Resende levaria a Selic de 13,75% para 7,5% em 12 meses e assusta o mercado.

A bolsa estava fechada ontem, mas os grupos de WhatsApps da Faria Lima pegaram fogo depois da notícia de que André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, teria levado a Lula uma proposta para derrubar a Selic na marreta.

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A tese: o Brasil gasta mal, mas os custos da dívida é que deixam as contas desequilibradas. O rombo não está no gasto, mas sim nos juros. A dívida custa R$ 1,4 trilhão por ano, uns 10,5% do PIB.

O plano: levar a Selic a cerca de 7,5% em 12 meses e depois a algo entre 3% e 5,5%. Um Conselho Fiscal e Monetário definiria as metas das duas políticas, e o BC manteria autonomia para executar os juros.

O pulo do gato: na visão dele, é que boa parte da dívida pública é atrelada à Selic. Juro menor = conta menor na hora. Seria um ajuste fiscal sem cortar gastos nem criar impostos.

A ideia não agradou muita gente e o governo correu pra apagar o incêndio no feriado. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a ideia não está na mesa do presidente. Só que três integrantes da equipe econômica confirmaram a tentativa de marcar um encontro de Lula com o economista.

Por que isso preocupa o mercado?

Porque a Selic é a principal ferramenta do BC para controlar a inflação. Quando os preços ameaçam subir demais, o banco pode elevar os juros para esfriar a economia. Ao colocar um teto na Selic, o BC perde justamente a credibilidade que pode fazer os juros caírem.

O mercado esperava um teto de gastos e recebeu um teto de juros. Agora, fala em dominância fiscal, quando o BC deixa de mirar a inflação para aliviar a dívida, e no fim da autonomia da instituição, que o próprio Lula questionou num dos debates eleitorais.

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Entre 2011 e 2012, com o governo Dilma pedindo juro menor em público, a Selic caiu de 12,5% para 7,25%. Três anos depois estava em 14,25%, com inflação de 10,67%, a maior desde 2002.

Por enquanto, a proposta parece não estar na mesa e o BC segue independente. Mas gestores dizem que onde há fumaça, há fogo, e a ideia nem precisa ser adotada pra custar caro…

PS: se divirta simulando o presidente do BC. O que você faria?

Dominância Fiscal

Acontece quando a situação das contas públicas fica tão frágil que a política monetária passa a jogar contra si mesma.

Em condições normais, o BC sobe juros, a demanda esfria e a inflação cede. Sob dominância fiscal, juros mais altos encarecem o serviço de uma dívida já grande e pioram sua trajetória.

Com isso, o mercado passa a exigir mais prêmio para financiar o governo, o capital sai, o câmbio deprecia e a inflação sobe justamente por causa do remédio que deveria contê-la.

STOCK MARKET

HIGHS AND LOWS

o que subiu e o que desceu nos pregões pelo mundo

Em alta

IDEXX Laboratories: ▲ 21,85% após a fornecedora de diagnósticos veterinários superar as expectativas de lucro trimestral e elevar sua projeção para o ano todo.

United Airlines: ▲ 4,80%, a queda do petróleo deu fôlego às aéreas, que carregam uma conta pesada de combustível.

Amazon: ▲ 2,20%, a recuperação após o balanço ganhou apoio da Phillip Securities, que recomendou compra e elevou o preço-alvo para US$ 330.

Em baixa

Oracle: ▼ 8,85%, após detalhar planos para levantar US$ 20 bilhões por meio de dívida e venda de ações para ajudar a financiar sua enorme expansão de infraestrutura de IA.

Intel: ▼ 8,8%, ampliando a queda após o declínio histórico de sexta-feira (~28%), em função de projeções fracas, consumo de caixa e restrições no fornecimento de chips.

Micron: ▼ 5,78%, com resultados decepcionando e uma perspectiva cautelosa da rival japonesa Kioxia pressionaram as ações de chips de memória.

EARNINGS

O cobre que pagou a conta do ferro

Duas empresas dentro do mesmo balanço, com a mineradora de ferro dependendo dos metais básicos para fechar a conta

No meio do furacão do Ibovespa, a Vale soltou seus resultados e mostrou um lucro caindo pela metade. Foi um trimestre fraco, mas exatamente do jeito que o mercado já esperava, pois já tinha colocado a régua lá embaixo: a ação caia quase -15% no mês.

O curioso é que, dentro do mesmo balanço, parecem existir duas empresas andando em direções opostas.

Os números do trimestre:

🔴 Lucro líquido: US$ 1,26 bilhão, queda de 53% a/a
🔴 Produção de minério de ferro: 88,4 milhões de toneladas, -6% a/a e abaixo das 90,1 Mt esperadas.
🟢 EBITDA de cobre: US$ 1,02 bilhão, alta de 66% a/a.

A primeira empresa é a de minério: e ela está apanhando de todos os lados. O preço realizado dos finos caiu 10% ao mesmo tempo que o custo caixa de produção subiu 12%, empurrado pelo Real mais forte e pelo diesel mais caro. Some o frete inflado pelo petróleo e o resultado é um EBITDA  39% menor.

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Enquanto preço é o problema cíclico, o problema estrutural está em Carajás, onde a produção encolheu 31%. Sem o minério nobre de Carajás, o mix piorou. 

A segunda é a Vale Base Metals: que vai muito bem, obrigado. O preço do cobre subiu 56% e o EBITDA da divisão saltou 61%. A conta do trimestre ficou quase empatada: cobre, níquel e subprodutos mais caros somaram US$ 680 milhões ao EBITDA, praticamente o que a queda do minério tirou (US$ 673 milhões).

No lucro, a Vale não classificou nenhum item como não recorrente, mas a última linha carrega US$ 322 milhões de ajuste na provisão da Samarco e US$ 276 milhões de efeito cambial sobre impostos. Do outro lado, entrou um ganho de US$ 610 milhões com derivativos. Com tanto ruído, o mercado foi direto ao caixa: o fluxo livre recorrente chegou a US$ 1,37 bilhão, acima do esperado.

  • Para os Bulls: a Vale gera caixa mesmo no fundo do ciclo do minério, com dívida sob controle e mais de 80% do frete de 2027 já contratado. A ação já embute o pior cenário para o ferro, e qualquer alívio de preço ou destravamento em Carajás vira upside.

  • Para os Bears: o minério ainda é 73% da receita e está piorando em volume, custo e qualidade ao mesmo tempo. Carajás não tem alívio previsto para 2027 e cobre bom não sustenta uma mineradora de ferro.

Foi um trimestre em que o cobre pagou a conta. O problema é que a fatura do minério chega todo trimestre, e a Vale vai ter que se desdobrar (e depender muito do exterior) para fazer com que a divisão de minério volte a não ser um detrator no balanço.

STATS

US$ 446 milhões

É quanto Elon Musk já colocou nas eleições de meio de mandato dos EUA, o que faz dele o maior doador individual da história, segundo dados da Comissão Eleitoral Federal.

Via ValorEconômico

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