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EDIÇÃO #249 • 29/09/2026 • THEDROPS.COM.BR |
Bom dia, Dropper! Pronto pro pregão?
Pensei no chuveiro: que bancos de investimento montam estruturas inteiras de compliance e barreiras para que dados sobre IPOs, M&As e clientes não caiam nas mãos erradas. Mas um funcionário do Morgan Stanley mandou por engano a clientes um e-mail interno com mais de 100 operações que o banco acompanhava ou tentava fechar. Quando ele percebeu, uma versão já tinha ido parar no Instagram. Às vezes o maior risco para alguns dos segredos mais bem guardados de Wall Street não é um hacker sofisticado.
No Drops de hoje, em 5 min e direto ao ponto:
• RJ: a recuperação que não recupera
• Casas Bahia e GPA: o calote cruzado
• Costco: o carrinho é grátis, o produto é o cartão


Por aqui, a semana de eleição já deixa o mercado tenso, e junto com o clima instável no exterior, a coisa só piora. A Petrobras até segurou um pouco o clima, mas o Ibovespa fechou em queda de 0,26% com uma rasteira dos bancos, que caíram em bloco - com o Desenrola 3.0 no radar, e as pesquisas BTG/Nexus e Quaest continuaram mostrando uma disputa voto a voto. O dólar comercial subiu 0,85%, a R$ 5,225, maior nível em seis meses. No meio disso, o Focus subiu de novo a projeção do IPCA de 2026, de 4,92% para 4,99%.
Lá fora, o Irã deu condições para um novo combo “cessar-fogo + reabertura do Estreito de Ormuz”, mas Trump rejeitou e Wall Street entendeu que ainda vai ter mais tempo de conflito. E aí vem guerra longa, energia mais cara e o Fed apertando os juros por mais tempo. O Brent chegou a bater ~US$ 109 e o treasury de 10 anos foi a 5,24%, nível que não se via desde 2004. No radar, amanhã tem a inflação PCE e na sexta o payroll.

BRASIL
RJ: a recuperação que não recupera
Só 23% das empresas que encerram uma recuperação judicial conseguem voltar a operar por conta própria

Crise nas planilhas, manchete nos jornais: uma soma que muitas vezes significa “recuperação judicial”. Mas na prática isso chega sem a parte da recuperação, porque somente uma em cada quatro empresas que chegam ao fim do processo consegue voltar a operar sozinha.
A proporção é praticamente um placar fixo há duas décadas: 23% de recuperações contra 77% de falências entre os processos já encerrados.
Nos últimos anos, o perfil de quem pede recuperação judicial mudou. A RJ deixou de ser território de grandes companhias cercadas de advogados e bancos, agora micro e pequenas empresas lideram os pedidos, com alta de 133%. O problema é que elas chegam ao processo com menos caixa e estrutura para bancar anos de negociação.
Varejo, indústria e agronegócio concentram a maior parte dos casos, mas o agro virou o destaque negativo. E cumprir os planos ficou mais difícil: eles foram desenhados em 2023-2024, quando poucos apostavam que o dinheiro ia ficar tão caro por tanto tempo.
O agro fechou o semestre com 1.263 CNPJs em recuperação judicial, alta de 66% em 12 meses.
No segundo trimestre, respondeu por uma em cada três novas entradas.
A inadimplência corporativa está em alta, e o crédito para empresas passa de 25% ao ano.
Há ainda uma turma que quase não aparece nas estatísticas: empresas que cumprem o plano, saem da RJ e quebram depois, ou que seguem com o processo aberto, mas já estão inativas na Receita. São as “mortes silenciosas”: não faliram no papel, mas já não existem na prática.
A RJ pode ser uma ferramenta poderosa. Só não é a salvadora das PJs. Quanto mais tarde ela entra em cena, menor tende a ser o espaço para reorganizar o negócio, e maior a chance de o “plano de recuperação” virar apenas o capítulo anterior à falência!
PS: No primeiro semestre de 2026, o Brasil tinha 6.341 empresas em recuperação judicial ativa, alta de 6,2% sobre o fim de 2025 e de 66% em três anos.

MACRO/AÇÕES
→ IPCA-15: volta a acelerar e afasta inflação da meta, apontam economistas.
→ Economia: confiança do consumidor nos EUA cai para menor nível em 4 meses.
→ FIDCs: chegam a R$ 1 trilhão, mas piora do crédito eleva risco da carteira.
→ Incorporadoras: mercado pesa a mão contra incorporadoras do MCMV.
→ Cripto: exchange global, que também opera no Brasil, perde R$ 1,8 bilhão em ataque hacker.
→ Yduqs: o que o mercado espera da fusão com a Afya.
→ Hapvida: chegou ao fundo do poço e pode ter até R$ 30,8 bilhões em benefício.
→ Starbucks: vai fechar 250 lojas nessa semana.
→ Copasa: Equatorial comunica intenção de romper acordo de acionista com MG.
→ Banco Inter: a regra dos 50 e a estratégia de João Vitor Menin para fazer do Inter o “banco das Américas”.
→ SulAmérica: investimentos chega a R$ 100 bi. Próximo passo é fazer o "ajuste fino" na taxa de remuneração.
→ Axia: período para manifestação de interesse na conversão de ações vai até amanhã.
→ CVC: renegocia dívida de R$ 370 mi e libera caixa para investir em tecnologia.
→ Shein: lucro cai 67% no trimestre com alta de custos e queda das vendas na Europa.
→ WEG: vai investir R$ 840 milhões em geradores com o avanço dos data centers nos EUA.


RJ e REJ
São dois caminhos para empresas em crise tentarem reorganizar suas dívidas antes de quebrar, mas com uma diferença importante:
Recuperação Judicial (RJ) acontece dentro de um processo judicial mais amplo, com maior participação do Judiciário, dos credores e normalmente de um administrador judicial;
Recuperação Extrajudicial (REJ) funciona mais como uma negociação direta entre empresa e credores, com um acordo que depois pode ser levado à Justiça para homologação e, cumpridos os requisitos legais, vincular até certos credores que não concordaram.
DÍVIDAS
Casas Bahia e GPA: o calote cruzado
O GPA cobra R$ 703 milhões; a Casas Bahia, R$ 174 milhões, mas ninguém concorda em simplesmente compensar a diferença.

Sabe aqueles dois amigos quebrados que devem um ao outro e, em vez de acertar a conta no bar, colocam um ao outro na fila do cartório? É mais ou menos o que acontece entre Casas Bahia e GPA, só que com nove dígitos. As duas estão em recuperação: uma judicial, outra extrajudicial.
Entre as dívidas:
Na ponta do GPA, a conta é maior. O grupo afirma ter R$ 703 milhões a receber da Casas Bahia - de créditos tributários ligados à antiga Globex, dona do Pontofrio.
Nas Casas Bahia, são R$ 174 milhões a receber do GPA - resultado de uma disputa arbitral envolvendo obrigações trabalhistas e cíveis assumidas na compra da Globex.
Na conta de padeiro, sobraria um saldo a favor do GPA. Se no papel parece fácil... na prática, as conversas atravessaram diferentes gestões sem chegar a um acordo, porque cada lado considera seu crédito mais “forte” que o do outro.
A Casas Bahia entende que os R$ 174 milhões que tem a receber são de curto prazo, líquidos e certos. O GPA, por outro lado, carrega um crédito de R$ 703 milhões ligado a um processo tributário referente ao período de 2003 a 2010, quando ainda controlava a operação do Pontofrio.
A situação embolou de vez porque a dívida do GPA com a Casas Bahia venceu quase junto com o pedido de recuperação extrajudicial do grupo. A Justiça tinha mandado pagar os R$ 174 milhões até 11 de março. O GPA entrou com o pedido no dia 10 e conseguiu o deferimento justamente no dia do vencimento.
Agora, qualquer solução ficou ainda mais complicada. Com as duas em recuperação, os créditos listados não podem ser negociados num acordo paralelo no cafezinho: nenhum credor pode ter tratamento preferencial ou fechar acertos fora do processo sem aval da Justiça.

STOCK MARKET
HIGHS AND LOWS
o que subiu e o que desceu nos pregões pelo mundo
Em alta
Magazine Luiza: ▲ 4,59% com o mercado digerindo a liberação da Anvisa para a venda de medicamentos na plataforma, e a reafirmação do rating pela S&P, que espera recuperação gradual das vendas.
Palo Alto Networks: ▲ 4,63% com o lançamento recente do Continuous Frontier, que usa modelos da OpenAI e Anthropic para procurar vulnerabilidades de forma contínua.
Nvidia: ▲ 2,16%, com Jensen Huang colocando mais US$ 150 bilhões em recompra de ações, o maior programa já anunciado por uma empresa americana.
Em baixa
MongoDB: ▼ 18,46% depois que o CEO Chirantan Desai renunciou ao cargo para assumir uma posição de liderança na Meta.
Roblox: ▼ 8,98%, com a Jefferies cortando a recomendação para underperform. O banco acha que o rali pós-resultado embutiu crescimento otimista demais.
Intel: ▼ 6,19% com a Apple passando a permitir que desenvolvedores retirem suporte a Macs com chips Intel, mostrando como a empresa perdeu espaço dentro da Apple.

EARNINGS
Costco: o carrinho é grátis, o produto é o cartão
O modelo da empresa nunca dependeu de margem no produto, o lucro de verdade vem da taxa de associação, não do carrinho.

O Atacadão dos EUA se chama Costco, a única varejista do mundo em que o produto é quase um brinde no balanço. Ela vende US$ 93,9 bilhões em mercadoria por trimestre com margem bruta de 11%, e o lucro de verdade vem da carteirinha de sócio. Mas se o carrinho está mais cheio, a fila para virar membro anda devagar.
Os números do trimestre:
🟢 Vendas líquidas: US$ 93,9 bilhões, alta de 11,2% a/a.
🟡 Lucro por ação: US$ 6,75 x US$ 6,53 esperados, mas US$ 0,15 foram efeito de reembolso tarifário.
🔴 Membros pagantes: 84,1 milhões, alta de só 3,8% a/a, com adição de novos sócios na mínima pós-Covid.
A operação segue apertada, do jeito que a Costco gosta: a margem bruta recuou pressionada por cortes deliberados de preço, alimentos frescos menos rentáveis e um encargo contábil de inflação de estoque que saltou de US$ 43 milhões para US$ 152 milhões.
Nada disso assusta, porque o modelo foi feito para empatar no produto e lucrar na anuidade, que entregou US$ 1,85 bilhão, alta de 7,3%, com renovação de 92,3% nos EUA e Canadá. Além disso, membros Executive, a premium, crescem 9,4%, para 42,3 milhões.
Cada vez mais clientes trocam os corredores da Costco pelo sofá, e a empresa terceirizou boa parte das entregas para a DoorDash. Quem ainda vai à loja aproveita para encher o tanque: com a gasolina em alta pelas tensões com o Irã, os postos da Costco bateram recorde de volume.
Com a ação a cerca de 45x P/L, o mercado não está pagando por uma varejista que cresce 11%. Está pagando por uma máquina de assinatura que precisa continuar recrutando. A boa notícia é que o caixa de US$ 20,2 bilhões e a geração operacional de US$ 15,8 bilhões no ano dão folga para tudo.
Para os Bulls: 92% de renovação é fidelidade que nenhuma assinatura de streaming sonha em ter. A Costco cresce dois dígitos, gera caixa como banco, não tem dívida relevante e ganha participação de mercado enquanto concorrentes reclamam do consumidor. Qualidade assim sempre foi cara, e sempre valeu.
Para os Bears: 45x lucro exige aceleração, e o dado que sustenta a tese está desacelerando. Novos membros na mínima pós-Covid, resultado inflado por tarifa devolvida. A ação é precificada à perfeição, mas entregou apenas um trimestre bom.
A Costco não teve um trimestre ruim. Teve um trimestre em que ficou claro que o carrinho não é o produto. O produto é a carteirinha, e ela está vendendo um pouco mais devagar do que o preço da ação exige.
Recomendação dos analistas:
Compra forte: 4 | Compra: 20 | Neutro: 13 | Venda: 1 | Venda forte: 1
Preço-alvo médio: US$ 1.057,80 | Preço atual: US$ 922,92
Potencial: +14,61%

STATS
US$ 235 bilhões
É o atual programa de recompra de ações da Nvidia, após o anúncio de aumentar em outros US$ 150 bilhões e se tornar o maior programa de recompra de uma empresa no mundo.
Via Bloomberg

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